Davi Ramos

De Badogue para a Lua

FullMoon2010-nobg

Bahia, Chapada Diamantina. Março de 1963.

A Lua cheia ilumina o profundo vale cercado de montes. Glória Maria se ajeita para a câmera.

– Estamos aqui no interior da Bahia, próximo à cidade turística de Lençóis, onde um morador teve uma ideia inusitada. Após assistir ao discurso emocionado do presidente americano John F. Kennedy, que há seis meses convocou os esforços de sua nação para botar o homem na Lua até o fim da década, Gerisvaldo Nascimento teve uma ideia melhor. Pra quê gastar bilhões de dólares, com centenas de milhares de pessoas e tecnologia de ponta, quando o desafio poderia ser alcançado com a força e inventividade do nordestino? O lançamento está programado para hoje, mas será que vai acontecer mesmo? Gerisvaldo, conta pra gente, o que é isso que estamos vendo?

Gerisvaldo ajeitou o chapéu e reacendeu o cigarro de palha.

– Esse é o ponto de lançamento, e a única coisa que ele vai lançar sou eu mesmo. Aqui no chão tem dois elásticos, e cada um desses elásticos está amarrado a uma corda tão grande que a vista não alcança. Como um badogue gigante. A primeira está amarrada lá naquele morro bem distante à esquerda. A segunda, bem pra direita, está no topo do Morro do Pai Inácio.

– Para quem está nos assistindo de outras regiões, um "badogue" nada mais é que um estilingue. – Ela esclarece. – E como isso vai funcionar?

– É muito simples – respondeu Gerisvaldo. – Eu vou ficar aqui, no meio do elástico. Atrás de mim tem uma corda que cem habitantes das redondezas vão puxar. Boa parte deles são amigos e familiares. Quando o elástico estiver bem esticado, o Chefe de Missão vai torar a corda de facão e eu vou seguir meu caminho.

– Que tipo de cálculo você fez para garantir que chegará à Lua em segurança?

– Cálculo? Pra quê cálculo? Basta olhar pra cima em uma noite enluarada e apontar pra lá. Não tem erro!

– Você não tem medo de morrer de frio? Ou asfixiado? – comentou a repórter, preocupada.

– De jeito nenhum, eu tô vendo a Lua daqui. A viagem vai ser rápida! Também não tenho medo de frio e passo o inverno todo sem camisa. Aqui na Chapada esfria bastante, você sabe? Além do mais, tenho um bom fôlego. Já ganhei três vezes a Travessia Salvador - Mar Grande!

– É que na Lua não tem ar, né.

– Isso lá é verdade. Mas aí os Luaranos tomam conta de mim – asseverou Gerisvaldo com confiança.

– Luaranos?

– Os habitantes da Lua. Agora dá licença que eu preciso me aprontar!

– Então, gente, eu estou assustada por ele. Mas não parece ter nada que alguém possa fazer para demovê-lo dessa ideia. O Gerisvaldo está todo aninhado no elástico e seus amigos começaram a puxar, alguns com a ajuda de cavalos. O elástico já está bem esticado e o Chefe de Missão, de bigode respeitável e mais velho que todos ali, se aproxima da corda segurando um facão que parece bem afiado. Ele levanta o facão em um gesto decidido e corta! Gerisvaldo voa, minha gente! Inacreditável! Procuramos por ele a noite toda. Desapareceu, mas ninguém sabe se cruzou a atmosfera!

Lua. 20 de julho de 1969.

A Apollo 11 inicia sua descida para a Lua. Buzz Aldrin e Neil Armstrong adentram o Módulo Lunar (Eagle) enquanto Michael Collins permanece em órbita, circulando a Lua no Módulo de Controle Columbia a cerca de 5700 km/h.

Esquecido pela história, Collins nunca pisaria na Lua.

A poucos metros da superfície e com o combustível no limite, o computador estava conduzindo o Módulo Lunar para uma cratera. Armstrong tomou o controle da espaçonave em um pouso manual. Após horas de preparativos, estavam prontos para pisar em solo lunar – inteiramente protegidos por seus trajes espaciais. A frase, dita sem muita ênfase, estaria nos livros de história desde então.

– Este é um pequeno passo para um homem...

Disse Armstrong. Então deu uma longa pausa. Sentiu-se compelido a olhar para o lado, onde a câmera não captava. A poucos metros dali, havia uma larga redoma de vidro espesso. Dentro dela, um homem sem camisa fumava um cigarro de palha e acenava cordialmente, fazendo um gesto com o chapéu. Do lado de fora, um humanoide roxo de um metro e meio, a cabeça enorme muito maior que os membros, sorria estranhamente com o que poderia ser uma boca.

– ...e um passo gigante para a humanidade.

Completou, jurando para si mesmo que jamais contaria para ninguém o que vira ali. Até porque, quem iria acreditar?

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