Um comentário de Clive Barker sobre a importância do conto

Em uma entrevista para a revista de horror Rue Morgue sobre seu novo livro de contos Library of the Dead, o mestre do horror Clive Barker teceu um saliente comentário sobre a importância do conto e seu desaparecimento das prateleiras das livrarias. Traduzi abaixo:
RUE MORGUE: Library of the Dead marca seu retorno ao formato de conto que tanto você quanto seus leitores tanto apreciam, mas esta nova coleção não é uma mera antologia de ficção sombria – é arte, palavras, itens colecionáveis e obras remasterizadas, abrangendo o próximo ano ou mais da sua vida. Parece um projeto e tanto!
CLIVE BARKER: A primeira coisa que gostaria de dizer desde que publiquei Livros de Sangue há 40 anos, é que não temos tido muitas coletâneas de contos. Não sei por quê. Se você for à seção de horror da Barnes & Noble, encontrará muitos romances enormes, mas poucas coletâneas de contos. Não sei se isso tem a ver com o gosto do público ou com outros motivos. Lembro-me de quando apresentei as primeiras histórias de Livros de Sangue para minha editora e eles disseram: "Não publicamos contos". Era minha primeira tentativa na escrita e fiquei um tanto decepcionado. Depois eles leram e mudaram de ideia. O resto é história, por assim dizer. Nesse tempo, nesses 40 anos desde então, você precisa procurar bastante para encontrar muitas coletâneas de contos. Stephen King tem algumas maravilhosas, mas a nova geração de jovens escritores não está escrevendo contos. Acho que muito disso se deve à ideia de que contos são mais difíceis de adaptar para outras mídias, como televisão e cinema.
O paradoxo disso é que algumas das melhores obras de horror são contos. Remontando a Edgar Allan Poe e toda uma série de escritores do século XIX, suas obras se baseavam nesse formato. Há 30 contos em Livros de Sangue. Se eu houvesse tentado transformar alguma dessas histórias em narrativas longas, não teria funcionado. A força delas reside no fato de serem curtas. Isso permite ao escritor espancar o leitor de um jeito que histórias longas não conseguem. O formato longo simplesmente não funciona da mesma maneira. Já escrevi alguns romances extensos, mas a ficção mais eficaz que já escrevi é a curta. Essa é uma das grandes vantagens de escrever essas novas histórias para a Library of the Dead. Tem coisas muito brutais ali para as quais não haveria equivalente se eu tentasse transformá-las em histórias longas.