Biografia de um personagem inexistente

A ideia do Escritor pareceu simples: escrever a biografia de um ser inexistente. Seu plano inicial era contar a história de alguém que jamais existiu, como um Papa asiático ou um cantor de punk rock da Era Mesozoica. Poderia, da mesma forma, falar de alguém que ainda não nasceu. Isso lhe pareceu muito fácil — sob esse critério, todas as obras de ficção seriam consideradas biografias de seres inexistentes.
Não — o Escritor precisava ser de todo original e negar tudo que o precedera em um impulso vanguardista. O objeto de sua obra não devia apenas inexistir. Deveria ser impossível.
O impossível é como uma mosca volante ocular ou um Triângulo de Penrose — concebível apenas enquanto você não olha para ele com atenção. Como escrever sobre o impossível sem empregar construtos linguísticos vazios? O tema de uma obra pode ser fugidio, mas a obra em si ainda é tangível; existe no mundo e deve dizer coisas. O problema é que qualquer coisa que se diga para o nada lhe confere propriedades, e coisas inexistentes não têm propriedades. A atribuição de propriedades os resgata da inexistência.
Logo lhe ocorreu uma solução. Para algo estar vazio, precisa antes estar repleto. Devia encher o Personagem de atributos e depois removê-los até que estivesse despovoado.
Joel era um jovem estudante de filosofia na Universidade Federal do Piauí. Ele era negro e morava com os pais. Joel era um agnóstico de esquerda e namorava Marília desde o ensino médio. Dizia para todo mundo que gostava de cervejas artesanais, mas a verdade é que não sabia dizer a diferença entre elas.
Escreveu, junto com outras determinações que estipularam Joel e o mundo onde vivia. Mas um mundo ficcional não implica que vale tudo. Um mundo em que o número 2 é, a um só tempo, par e ímpar seria impossível. Ou um no qual Aristóteles existe e não existe. Ou ainda um mundo no qual quadrados são elípticos. Daí se estabelece que, dentre os mundos concebíveis (pois podemos conceber absurdos) apenas alguns são possíveis. Logo, não bastava negar tudo que afirmara sobre Joel e seu mundo — precisava torná-lo absurdo, incompatível com a própria ideia de existência. Joel, portanto, era e não era estudante de filosofia. Era e não era negro, morava e não morava com os pais, era e não era um agnóstico de esquerda. Existia e não existia a um só tempo e no mesmo espaço.
Isso parece muito teórico. Mas se dentre os mundos concebível alguns são possíveis, talvez houvesse, na vastidão do multiverso, um mundo no qual Joel não fosse apenas ficcional. Este mundo poderia eclodir de uma determinação do Escritor, que o ergueu do caldo das possibilidades apenas para apontar as suas contradições internas, lançando-o na vastidão de nada que circunda o universo em expansão.
Ao final restou apenas um nome, uma referência apontando para lugar nenhum. O Escritor admirava a página em branco no computador, idêntica à que tinha antes de começar a escrever. Mas não eram as mesmas, de forma nenhuma. A página do início era prenhe de presságios. E essa outra, vazia de todos eles.