Davi Ramos

O Problemático

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Elias era viciado em profundezas. Via em tudo um fio da meada que lhe cabia desatar. Como uma criança de 3 anos que nunca passou da idade dos "porquês", indagava tudo mas nunca questionava se suas perguntas tinham motivação. Era obcecado por política — para ele tudo tinha uma intenção secreta, um significado profundo. Vendo-o argumentar, alguém diria que para Elias copos d'agua tem lacunas cognitivas, afiliações partidárias e um histórico social democrata permeado de conservadorismo enrustido.

Quando chegava na mesa do bar seus amigos respiravam fundo. Sabiam que, dali em diante, a diversão correria da mesa como um gato encurralado. Cada um tinha sua estratégia. Quando Elias problematizava pro lado dele, Joaquim desconversava sobre um jogo de futebol, emendava com uma crítica sobre a esposa e arremetia com força para um pessimismo absoluto e diletante. "Esse mundo é dos injustos!", ele dizia. Ou alguma outra bobagem assim. Então Joaquim olhava para o infinito enquanto os amigos o acompanhavam com um silêncio longo e aprazível.

Romeu era mais estóico, suportando em silêncio a cantilena do amigo e soltando, quando instado, um leve grunhido de aprovação insincera.

O problema mesmo era o Afonso. O Afonso não resistia. Dava corda. Discordava, mas dava corda. Enquanto os outros assistiam cada vez mais embriagados, Elias e Afonso discutiam o sexo dos anjos até de manhãzinha. Iam e voltavam sem resolver nada, sem nunca mudarem de opinião. Toda a existência mapeada por elos fracos, sem nexo e deveras convenientes. Se alguém se opusesse a falar de política a noite inteira, Elias tinha uma resposta pronta: "Mas tudo é política!". Uma dessas frases de efeito que só fazem sentido se você não pensar muito nelas.

E assim continuavam, Elias girando alegremente como um pião enquanto os outros três se perguntavam que pecado cometeram para achar aquele rapaz.

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