Davi Ramos

A Vizinha do Quinhentos e Um

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Até Ademiro morrer, a Dona Romilda assistia à missa todos os dias, fazia bolo para a quermesse e confessava, toda semana, uma litania de pecados inofensivos que não ofenderiam nem o Pai, nem o Filho, e nem muito menos o Espírito Santo. Estava sempre coberta de panos estampados que disfarçavam a sua figura como uma burca tropical. Falava só o necessário, em tom delicado.

Só souberam que Ademir morreu na reunião de condomínio, quando recebeu um luto curto e fingido. O que não puderam ignorar foi a mudança súbita de Romilda quando desceu o elevador de camiseta apertada e shortinho jeans. Debaixo dos panos, Romilda era bem dotada pela natureza. A barriga era chapada e carnuda, as coxas, grossas e bronzeadas, e o traseiro era um pandeirão de fazer inveja a muitas novinhas.

Não demorou para surgirem os rumores. A Dona Romilda estava varrendo o prédio com voracidade de leoa. Moradores, porteiros, entregadores — todos estavam na mira de seu apetite insaciável. Ninguém reclamou. Exceto as esposas, é claro. De vez em quando uma batia em sua porta procurando briga. A Dona Romilda ouvia tudo em silêncio, sem recriminar. Quando sentia que a traída ficara sem combustível, emendava.

— Você quer um chazinho?

Romilda levantava sem esperar a resposta, ia até a cozinha e botava um cadinho de água para esquentar.

– Pode sentar! — dizia lá de dentro com toda delicadeza da devota que uma vez fora.

Após a troca de amenidades, as esposas saíam apaziguadas e certas da inocência sua e de seus maridos.

Cesinha ouvira os comentários; era impossível não escutar. Uma senhora de cinquenta anos papando todos os rapazes do Edifício Jardim das Acácias. A ideia era cômica e absurda. Quando o porteiro lhe pediu para deixar a fatura do condomínio no apartamento da notória viúva do quinhentos e um, Cesinha aceitou a tarefa de bom grado. Isso deixaria a piada ainda mais engraçada em sua imaginação. Quando bateu à porta, notou-se ansioso. "Bobagem!", pensou. "Que perigo uma senhorinha pode apresentar?". Ela abriu a porta de camisola. Botou os óculos de leitura.

— Ah, sim. Obrigado.

Ela disse e foi fechando a porta. Cesinha pôs o pé em seu caminho, sem saber o que estava fazendo ou por quê.

— Algo mais?

— Não, é que... bem, a verdade é que eu não sei. Eu pensei que...

— Acho que entendi — Ela disse, sorrindo cordialmente. — Quer entrar um pouco para tomar um chazinho?

— Sim, sim. Acho que sim.

— Muito bem. Pode se sentar. Eu já volto.

Meia hora depois estavam despidos sob os lençóis. Romilda fumava um cigarro. Cesinha projetava um mar de culpa no teto bege. E se ele virasse a fofoca do condomínio? Pior, e se sua esposa ficasse sabendo? E então ele olhou para o lado e viu a serenidade beatífica estampada na face de sua parceira no crime. Apaziguou-se. Se sua mulher descobrisse, bastava mandá-la conversar com a Dona Romilda.

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